Entendendo os transgênicos na agricultura

Publicado em: 13.04.2022



Organismos geneticamente modificados (OGMs), segundo a Lei de Biossegurança nº 11.105, é o “organismo cujo material genético – DNA/RNA tenha sido modificado por qualquer técnica de engenharia genética”. São exemplos de modificações genéticas as deleções, inserções e substituições de bases ou sequências de bases nitrogenadas no DNA e os organismos transgênicos.

Os transgênicos são um tipo específico de OGMs que tiveram seu material genético modificado com a inserção de genes de uma espécie com a qual não podem se reproduzir naturalmente. Também existem OGMs que receberam genes de espécies próximas, com as quais podem se reproduzir, esses são chamados de cisgênicos

O processo de transformação de plantas (organismos transgênicos) foi possível graças ao descobrimento daAgrobacterium tumefaciens, uma bactéria Gram-negativa responsável pela doença “galha-da-coroa”. Essa bactéria possui um plasmídeo capaz de infectar dicotiledôneas e estimular a divisão exacerbada de suas células através da inserção de um gene ao genoma da planta. Por conta dessa característica, até hoje a A. tumefaciens é muito usada para produzir plantas transgênicas.

Processo de obtenção de uma planta transgênica. Fonte: Produzido pelo autor, informações obtidas de Bespalhok F., Guerra e Oliveira.

Existem dois tipos de plantas transgênicas: as de 1ª e de 2ª geração.

Transgênicos de 1ª geração

Os transgênicos de 1ª geração são aquelas plantas que receberam transformação do tipo input, ou seja, que possuem características como resistência a doenças, herbicidas e insetos. Alguns exemplos são:

  • O algodão branco BRS 432 B2RF, que possui genes de resistência ao herbicida glifosato e as principais lagartas que são pragas do algodoeiro. Esse cultivar possui elevada produtividade, com rendimento de 42% de fibra, e resistência à mancha angular, uma bacteriose, e doença azul e mosaico comum, duas viroses.
  • A soja BRS 6970IPRO, que também possui resistência ao glifosato e ao nematóide das galhas (Meloidogyne javanica) e ao oídio (Erysiphe diffusa), uma doença fúngica que afeta grande variedade de plantas. Além de apresentar amadurecimento precoce e ter alto potencial produtivo.

Esses transgênicos geram benefícios aos agricultores e ao meio ambiente, tendo em vista que diminuem os gastos com inseticidas e tratamentos de doenças, e garantem a produtividade. Além disso, também tornam mais fácil o controle de pragas e reduzem a contaminação do solo e da água por agrotóxicos.

Cerca de 90% do algodão produzido no Brasil atualmente é transgênico. Fonte: Pixabay.

Transgênicos de 2ª geração

Os transgênicos de 2ª geração são do tipo output, e são as plantas que receberam genes que melhoram a qualidade nutricional do fruto, trazendo benefícios à saúde do consumidor. Um exemplo:

  • Arroz dourado: possui dois transgenes da planta Narcissus pseudonarcissus e um transgene da bactéria Erwinia uredovora. Foi produzido no ano 2000 por pesquisadores suíços do Swiss Federal Institute of Technology e do departamento de biologia celular da Universidade de Freiburg. O arroz é a base da dieta de populações de países mais pobres que sofrem com a falta de vitamina A que pode causar cegueira, diarreia e infecções respiratórias.

Com os transgênicos também é possível obter benefícios na pós colheita, como o tomate feito pela empresa Calgene, em 1994, que possuía um RNA antisenso que bloqueava produção da enzima poligalacturonase, responsável por degradar a pectina da parede e então retardava o processo de amadurecimento. No entanto, esse tomate não teve grande apelo comercial e deixou de ser produzido.

O arroz dourado foi desenvolvido a cerca de 20 anos e é comercializado principalmente em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Fonte: Pixabay.

Vantagens do uso dos transgênicos

A criação das técnicas de produção de transgênicos trouxeram algumas vantagens à agricultura, sendo elas:

  • O aumento na velocidade de criação de uma cultivar sem precisar de muitos cruzamentos e endocruzamentos até se obter a variedade com características desejadas;
  • A possibilidade de inserção de genes entre espécies que não são proximamente aparentadas, o que não possível com as técnicas de hibridizações;
  • Aumento da produtividade das lavouras;
  • Criação de plantas resistentes a seca e outros fatores climáticos extremos;
  • Redução dos custos com inseticidas e tratamento de doenças quando se usa plantas resistentes a insetos e patógenos, o que também gera menos impacto ambiental[1] ;
  • Melhora a qualidade da alimentação do consumidor que se beneficiaria com os transgênicos output, mas esses cultivares ainda são a minoria no mercado.

Desvantagens no uso de transgênicos

Apesar de se apresentarem como boas alternativas aos agricultores, os transgênicos também possuem desvantagens que devem ser consideradas. Algumas delas são:

  • Perda de variabilidade genética da população, o que pode deixar a plantação mais suscetível a novas pragas;
  • Os cultivares transgênicos podem ser mais caros que os tradicionais por estarem sujeitos a cobrança de royalties;
  • É possível que haja fluxo gênico entre os cultivares transgênicos e as plantas daninhas, que podem adquirir resistência aos herbicidas usados;
  • A resistência a patógenos e insetos pode rapidamente levar ao aparecimento de pragas resistentes e por isso, deve ser tratado junto com o manejo integrado de insetos;
  • O uso de cultivares resistentes a herbicidas pode levar ao uso desenfreado de agrotóxicos para eliminar plantas concorrentes, o que leva a uma maior poluição ambiental;
  • Espécies que não podem ser regeneradas por cultura de tecidos não podem passar por processo de transgenia, já que esse é um passo essencial para a produção do novo cultivar.

Regulamentação

Para que um cultivar transgênico seja regulamentado e comercializado no Brasil deve seguir a Política Nacional de Biossegurança estabelecida pela Comissão Técnica de Biossegurança (CTNBio), uma comissão especial do Ministério da Ciência e Tecnologia composta por algumas entidades. Tais como: Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Todo o processo de desenvolvimento de um novo cultivar é acompanhado pela CTNBio, desde de as pesquisas iniciais, caracterização molecular, avaliação de segurança alimentar, avaliação de segurança ambiental e a avaliação dos impactos socioeconômicos, liberação e comercialização.

Um cultivar só é autorizado a ser comercializado quando é aprovado em uma série de análises mostrando que não causa danos ao ser humano, aos animais, à microbiota do solo, aos organismos não alvo e ao meio ambiente.

Algumas das principais normativas que devem ser seguidas para criação de um novo transgênico são:

Dentre as principais críticas ao uso de transgênicos está a possibilidade do uso exacerbado de herbicidas por parte de agricultores que se aproveitam do uso de transgênicos resistentes. Todavia, assim como outras técnicas de produção utilizadas na agricultura, o uso de transgênicos em lavouras apresenta também muitas vantagens e é importante ressaltar que o uso de plantas transgênicas é regulamentado, visando reduzir os efeitos negativos desses cultivares.

Referências:

ZILBERMAN, D. HOLLAND, T. G., TRILNICK, I. Agricultural GMOs—What We Know and Where Scientists Disagree.Sustainability, V. 1-, N. 5, 2018, p. 1514. Disponível em: <https://www.mdpi.com/2071-1050/10/5/1514>. Acesso em: 28 fev. 2022.

YALI, W. Application of Genetically Modifi ed Organism (GMO) crop technology and its implications in modern agriculture. International Journal of Agricultural Science and Food Technology, v. 1, n. 8, 2022, pp. 14-20. Disponível em: <https://www.peertechzpublications.com/articles/IJASFT-8-239.pdf>. Acesso em: 28 fev. 2022.

BRASIL. Casa Civil. Lei de Biossegurança nº 11.105. Brasília, DF, 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11105.htm>. Acesso em: 28 fev. 2022.

CROP LIFE. Arroz dourado está perto de chegar ao consumidor após 20 anos. Disponível em:<

https://croplifebrasil.org/noticias/arroz-dourado-esta-perto-de-chegar-ao-consumidor-apos-20-anos/>. Acesso em: 1 mar. 2022.

CROP LIFE. Qual a diferença entre OGM, transgênico e cisgênico?  Disponível em: <

https://croplifebrasil.org/perguntas-frequentes/qual-a-diferenca-entre-ogm-transgenico-e-cisgenico/>. Acesso em: 28 fev. 2022.

BESPALHOK, J. C., GUERRA, E. P., OLIVEIRA, R. Plantas Transgênicas in: Melhoramento vegetal de espécies cultivadas. LONDRINA, PR: UEL, 1999, v. , p. 613-619. Disponível em: <http://www.bespa.agrarias.ufpr.br/paginas/livro/capitulo%20transgenicos.pdf>. Acesso em: 28 fev. 2022


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