Vírus oncolíticos e as vacinas anticâncer

Publicado em: 13.04.2022



Durante muito tempo, consideramos os vírus como inimigos associados às doenças. Mas os avanços biotecnológicos demonstraram que algumas características virais podem ser benéficas, em especial para o tratamento do câncer.

Considerando que alguns vírus se replicam dentro de células cancerosas, por que não os manipular geneticamente para que eles infectem e eliminem apenas as células do câncer? Essa é a proposta dos vírus oncolíticos, uma estratégia terapêutica que vem apresentando resultados eficazes e seguros, e é uma das esperanças da medicina para os próximos anos.

A imunoterapia e os vírus oncolíticos

A imunoterapia é a terapia mais promissora para diferentes tipos de câncer, com destaque para a terapia oncolítica viral baseada nos vírus oncolíticos, os vírus que são geneticamente modificados para atacar especificamente os tumores.

As principais etapas da imunoterapia com vírus oncolíticos são:

1-    Escolha do vírus: Os principais vírus empregados são o vírus da herpes, o adenovírus (vírus de resfriado) e o vaccinia (vírus da varíola). O vírus escolhido deve utilizar o sistema imunológico do paciente para a identificação e destruição das células cancerosas. É importante destacar que não é possível combater todos os tipos de câncer com um único tipo de vírus, devido a heterogeneidade e complexidade dos tumores.

2-     Modificação genética do vírus: Os vírus são modificados para que não causem doenças e destruam apenas as células cancerosas. Em alguns casos, esses vírus também podem produzir as mesmas proteínas das células cancerosas. Essa estratégia ativa o sistema imune do paciente, deixando-o em alerta para atacar essa proteína específica em outros tecidos, combatendo assim a metástase.

3-     Introdução do vírus oncolítico no paciente: São introduzidos no paciente de forma isolada ou combinada com alguma terapia convencional (quimioterapia ou radioterapia), e estimulam a ativação das células dendríticas e células natural killer, importantes para eliminação do tumor. Além disso, as células de memória imunológica podem ser ativadas, fazendo com que o organismo elimine as células cancerosas rapidamente, caso o mesmo tipo de câncer retorne (recidiva).

Os estudos clínicos indicam que a terapia com vírus oncolíticos não apresenta efeitos colaterais graves, quase nenhuma toxicidade, e poderiam ser utilizados como terapia única ou complementar (a quimioterapia ou radioterapia).

A escolha e modificação genética do vírus é realizada em laboratório. Fonte: Pexels

Os vírus oncolíticos já estão entre nós!

Em 2015 o Food and Drug Administration (FDA) aprovou a uma terapia baseada em vírus oncolíticos para melanoma (câncer de pele). A terapia, fabricada pela Amgen, utiliza o vírus da herpes geneticamente modificado que adquire a capacidade de infectar e destruir as células cancerosas, além de ativar o sistema imunológico do paciente para combater o tumor. O vírus oncolítico é injetado diretamente nas lesões do melanoma. O procedimento é repetido três semanas depois e posteriormente a cada duas semanas até completarem, no mínimo, seis meses de tratamento.

Até o momento, a terapia não é indicada para pacientes grávidas ou com supressão do sistema imunológico. Outro desafio é a redução dos custos do tratamento, que hoje está em torno de US$ 65 mil, abaixo de outros tipos de imunoterapias, mas ainda considerado muito alto.

Atualmente, outras empresas e laboratórios buscam aprimorar e desenvolver novos vírus oncolíticos. Dentre eles, a startup brasileira de biotecnologia Vyro que visa o desenvolvimento de uma terapia para câncer cerebral pediátrico e adulto, doenças com alta taxa de mortalidade (acima de 70%).A empresa espera desenvolver, em breve, a primeira terapia devírus oncolíticos para tumores cerebrais pediátricos, que ainda não possuem tratamentos disponíveis, além de investir em estudos para empregar o Zika vírus como um vírus oncolítico.

Vacina anticâncer: um tratamento personalizado

Uma das vantagens da terapia com vírus oncolíticos é oferecer ao paciente uma terapia personalizada, que atue especificamente sobre as células cancerosas, sem danos às células saudáveis (como ocorre na quimioterapia ou radioterapia). Dessa forma, essa terapia apresenta menos efeitos colaterais e ainda pode proteger o paciente de novos tumores do mesmo tipo.

Agora, os cientistas pretendem utilizar essas vantagens para a elaboração de uma vacina anticâncer. E um estudo recente, desenvolvido na Universidade de Montréal (Canadá), obteve resultados promissores em animais.

Para isso, uma amostra do tumor é coletada, as células cancerosas são sequenciadas e as mutações e proteínas específicas do tumor são identificadas. Posteriormente, são gerados os vírus oncolíticos, que expressam especificamente essas proteínas. E assim, esses vírus oncolíticos podem ser usados na formulação de uma vacina, em uma estratégia muito semelhante à vacina de vetor viral, já utilizada para outras doenças como a COVID-19.

Os vírus oncolíticos podem ser usados na formulação de vacinas anticâncer. Fonte: Pexels.

Próximos passos…

Certamente os avanços biotecnológicos permitirão que a tecnologia dos vírus oncolíticos seja aprimorada, ampliando suas aplicações e reduzindo seus custos. As pesquisas atuais visam o desenvolvimento de novas estratégias para:  (i) “entregar” o vírus à célula cancerosa; (ii) neutralizar o sistema imunológico do paciente, evitando rejeição do tratamento; (iii) melhorar o recrutamento das células de defesa para o local do tumor; e (iv) encontrar novos alvos moleculares que permitam o uso da terapia em outros tipos de câncer.

Como a tecnologia já foi aprovada pelo FDA, os cientistas esperam maior facilidade para a aprovação de terapias semelhantes, afinal a primeira aprovação é sempre mais difícil pois requer a implementação de protocolos e testes clínicos.

Por ser um tratamento eficaz, menos invasivo e sem efeitos colaterais graves, a terapia com vírus oncolíticos é uma das estratégias mais interessantes para o setor oncológico. E embora envolva uma tecnologia complexa, e que ainda precisa ser ampliada para outros tipos de câncer, certamente será o foco de pesquisas e investimentos nos próximos anos.

Hartmann, M. Entenda como a ciência quer usar vacinas para combater o câncer. GZH Saúde, 2021. Disponível em <https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2021/06/entenda-como-a-ciencia-quer-usar-vacinas-para-combater-o-cancer-ckpcvpuxq003o01806my1koc6.html > Acesso em 15 de jan de 2022.

Matsuura, S. Pela primeira vez, EUA aprovam vírus para tratar câncer. Jornal O Globo, 2015. Disponível em < https://oglobo.globo.com/saude/pela-primeira-vez-eua-aprovam-virus-para-tratar-cancer-17910981> Acesso em 15 de jan de 2022.

Referências:

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UDEM NOUVELLES. A personalized anti-cancer vaccine that works in mice. Université de Montréal, 2021. Disponível em <https://nouvelles.umontreal.ca/en/article/2021/05/11/a-personalized-anti-cancer-vaccine-that-works-in-mice/ > Acesso em 15 de jan de 2022.

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